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O filme revela todos os elementos da resistência atual, a subversão, a anarquia, a recusa, a sabotagem, a rede como forma de organização, a multidão, a luta contra o poder das grandes corporações, das marcas e do consumismo. E o mais importante, o entendimento de que o mundo não é mais o mesmo, o capital já não opera da mesma força, Nem suas formas de controle e coerção, a formas de mediações e representações são outras e por isso, a exigência de uma nova construção de militância e contestação, onde a comunicação tem extrema importância.” Maria Aparecida Landin Pereira - Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Uerj – 5 a 9 de setembro de 2005.
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"Você abre a porta e entra: Está dentro do seu coração.
Imagine que sua dor é uma bola de neve que vai curar você.
Esta é sua vida.
É a última gota pra você
Melhor do que isso não pode ficar.
Esta é sua vida
Que acaba um minuto por vez
Isto não é um seminário.
Nem um retiro de fim de semana
De onde você está não pode imaginar como será o fundo
Somente após uma desgraça conseguirá despertar
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser
Nada é estático.
Tudo é movimento.
E tudo esta desmoronando.
Esta é sua vida
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
E ela acaba um minuto por vez
Você não é um ser bonito e admirável.
Você é igual à decadência refletida em tudo
Todos fazendo parte da mesma podridão
Somos o único lixo que canta e dança no mundo
Você não é sua conta bancária
Nem as roupas que usa
Você não é o conteúdo de sua carteira
Você não é seu câncer de intestino
Você não é o carro que dirige
Você não é suas malditas calças
Você precisa desistir
Você precisa saber que vai morrer um dia
Antes disso você é um inútil
Será que serei completo?
Será que nunca ficarei contente?
Será que não vou me libertar de suas regras rígidas?
Será que não vou me libertar de sua arte inteligente?
Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?
Digo: você precisa desistir
Digo: evolua mesmo se você desmoronar por dentro
Esta é sua vida
Melhor do isso não pode ficar
Esta é sua vidae ela acaba um minuto por vez
Você precisa desistir
Estou avisando que terá sua chance"
(Tyler Durden; Clube da Luta).
Quero falar sobre um episódio que aconteceu, e o qual lembrei e pensei algumas questões enquanto revia o filme “Clube da Luta”.
Preciso contar, antes de explicar o episódio, que gosto de jogar futebol 7, em grama sintética, geralmente aos sábados com um grupo de meninas há mais ou menos dois anos. A posição que ocupo é na defesa: como zagueira fixa ou como lateral. Embora saibamos da agressividade que envolve tal esporte, sempre procurei ser cuidadosa nessa posição, principalmente porque no jogo existem amigas, que nem sempre jogam no mesmo time que o meu e certamente não gostaria de machucá-las. Claro, que já aconteceram lances agressivos, em que deixei canelas roxas como também me machuquei, mas é sempre algo ruim e que causa constrangimento.
Uma vez, estava na defesa e meu time ganhava de 5 a 0. Havia uma atacante, do time oposto, que tentava com empenho fazer um gol e eu a estava marcando, também com empenho. Tivemos lances consecutivos de disputas de bolas, porém nenhum de bola presa, e nenhum também em que eu houvesse machucado-a. Mesmo assim, ela começou a se irritar com a situação e já havia gritado comigo algumas vezes. Eu ficava sempre muito constrangida e pedia desculpa, embora, tenha percebido, depois do jogo, que eu não havia feito nada que lhe desse o direito à reclamação. Eu estava apenas tendo êxito em minha função: impedi-la de fazer o gol. Bem, na seqüência do jogo, ocorreu uma lateral para o meu time e a menina que cobrou o lance, chutou a bola em minha direção, ao que eu lancei-a para frente, tentando colocar nos pés da nossa artilheira, que já estava próxima da área. A bola bateu no ombro da menina do outro time, exatamente a menina que eu estava marcando durante quase todo o jogo. Ela, novamente, gritou comigo e disse coisas grosseiras. Ao que eu pedi novamente desculpas e voltei para a minha posição.
Aprenda a viver, descanse quando morrer.
Tudo que você precisa está dentro de você
(Tyler Durden; Clube da Luta)
Enquanto eu voltava par a minha posição, e o jogo seguia correndo, eu estava pensando na forma como a menina havia me tratado, logo lembrei de uma conversa que tinha tido, com a, então, minha chefa, na semana. Lembrei em como ela tinha sido estúpida comigo, em como ela estava a periodicamente sendo grosseira comigo, e ali mesmo, durante o jogo, pensei em como eu era sonsa e como era estranha a forma como eu ouvia desaforos pedindo desculpas. Pensei que era uma questão existencial. Uma questão do meu jeito de ser na vida, em vários momentos, inclusive em minha adolescência, passou pelas minhas idéias e desencadeou uma decepção comigo mesma. Quando percebo, a bola esta novamente vindo em direção à área do gol que devo proteger e quem esta com a bola é exatamente a menina estúpida. Eu fico atenta, mas quando estou indo em direção a ela, ela chuta a bola com força nos meus peitos. Eu dou um grito de dor ( fiquei dolorida por quatro dias), e quando a olho, ela estava fazendo uma cara de quem havia tido um prazer naquilo. Neste momento, senti como se todos os outros barulhos ficassem secundários e diminuíssem de volume. Senti minha respiração se acelerando, uma quentura em todo corpo, meus punhos já cerrados, meus olhos fixos no nariz dela e em minha mente já a imaginava no chão e sangrando. Parei e fiquei bufando, enquanto o jogo seguia. Não precisei ir em direção a ela, num piscar de olhos, estava ela na área para tentar fazer um gol. Então, fui em direção a ela e ainda com “sangue no zóio” chamei-a de otária. Ela ou não ouviu, ou fingiu que não ouviu, e então eu novamente a chamei de otária, ela perguntou se eu estava falando com ela, eu então, lhe gritei que eu não havia feito de propósito, mas ela sim. Dei-me conta, que eu estava a me desculpar com ela novamente. Por quê¿ Ela havia sido estúpida, ela havia me machucado e num único acesso de coragem pensei: “Eu vou brigar com ela, e vou apanhar, porque ela é maior, mas ao menos um soco forte eu conseguirei dar”. E gritei com força coisas estúpidas para ela, enquanto pensava em qual momento avançar com um soco sobre ela. A sensação que eu tinha, é que tudo era muito dificultoso, como quando estamos sonhando e queremos correr, mas parece que ficamos lentos. A menina olhou-me, e fez um gesto com a mão, como quem dissesse “Deixa para lá” e tomou distância de mim. Instantaneamente algumas meninas vieram falar comigo e outras foram falar com ela, tentando acalmar os ânimos.

Somente após uma desgraça conseguirá despertar
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser
Nada é estático
Tudo é movimentoE tudo esta desmoronando
Esta é sua vida e ela acaba um minuto por vez(Tyler Durden; Clube da Luta)
Então, ao ver o filme de David Fincher, e ver a relação do Jack - Edward Norton - com a luta, não pude deixar de relacionar com a situação peculiar que eu vivi. Também entendi como ele poderia ter dupla personalidade, criar um outro, Tyler -Brad Pitt - que era forte e tinha a coragem e a virilidade que Jack não tinha.
Na mesma semana do futebol, minha chefe convida-me a entrar na sala dela, para perguntar o que estava acontecendo comigo. Reclamou de algumas coisas que eu havia feito, criticou o meu trabalho e perguntou se estava tudo bem com o meu namorado e porque eu não demonstrava mais amor ao trabalho. Na hora, Tyler Durden tentou se manifestar, e nos primeiros momentos conseguiu dizer que: E que amor¿ amor eu tenho pela minha família, pelo meu namorado, mas que em relação aquele trabalho, tratava-se de uma relação profissional. Ele pensou em dizer que não acreditava como ela tinha coragem reclamar que Jack não estava se dedicando ao trabalho, porque havia sido contratado por 12 horas e fazia no mínimo 30h. Pensou também em dizer, que a relação amorosa não lhe dizia respeito, e que perguntar a um funcionário se ele estava indo mal no trabalho devido à problemas amorosos, era quase uma piadinha de mau gosto, e apontava a forma como ela analisava seus funcionários, certamente desprovido de qualquer conhecimento acerca de relações de trabalho. Tyler não lhe disse sobre diversas coisas. Permaneceu calado.Jack chorou quando a chefe lhe disse que havia feito o último trabalho como bem quis e não conforme as ordens que havia lhe dado. Jack disse que tentou fazer tudo conforme a solicitação, e que havia lhe informado há duas semanas que não estava conseguindo o contato com a pessoa que a chefe queria. Que fazia as coisas de seu jeito, porque todo mundo faz ao seu jeito. Não há outro jeito de fazer. Explicou-se, chorou e pediu para ir embora, porque se não a agradava, não servia para o cargo. Tyler, quase que sussurava coisas ao ouvido de Jack, mas este seguia impassivo.
Jack já havia pedido demissão, uns dois meses antes, mas propuseram um aumento de salário de 50% do valor, e então, desistiu de ir embora e continuou lá. Porém, após essa conversa, demoraram ainda alguns dias para que tudo se resolvesse e trinta dias para que Jack e Tyler fossem embora de lá, porque embora não tivesse amor ao trabalho, não haveria quem substituísse, e havia coisas importantes sendo encaminhadas.

“Você não é seu emprego. Nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco. Não é o carro que dirige nem o que tem na carteira, nem as roupas que veste. Você é a merda ambulante do mundo" (Fincher,David, Clube da Luta, EUA, 1999).
Como é difícil largar um trabalho, quando não se tem outro em vista. Como é difícil explicar aos outros essa questão. Como parecemos loucos quando não concordamos com mandatos universais contemporâneos. Como é difícil acionarmos o Tyler. Somos muito instruídos a sermos comportados, a sermos mais uma peça que caiba no sistema. Sofremos por estarmos fora do sistema, sofremos por estarmos dentro do sistema.
“Jack também vive a recusa do trabalho. Ele odeia o seu chefe e sua disciplina, quando seu chefe lhe pede uma tarefa, Jack quando a faz, preferia não ter feito. Para ele, o trabalho é uma servidão voluntária e é isso que ele nega o paradoxo de servir voluntariamente, e com essa negação, Jack também está subvertendo a autoridade que o domina”.
Maria Aparecida Landin Pereira - Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Uerj – 5 a 9 de setembro de 2005.
[1]É curioso, como as formas de coerção e dominação utilizadas por chefias utilizam-se da vida pessoal como justificativa para que um trabalho não estivesse sendo bem realizado. Não pensa-se na desarticulação entre os setores, nas competitividades que existem em ambientes de trabalho, o problema é visto como individual e de ordem pessoal e não do funcionamento de setores e da organização do trabalho.
Lembro também, de uma vez, logo após ter pedido a demissão, que várias colegas, de diferentes setores, inclusive a chefe com quem eu havia me desentendido entraram em minha sala de uma só vez, falando assuntos aparentemente banais, e perguntaram se eu já havia visto o filme “O Diabo Veste Prada”, e disseram que me emprestariam para que eu o visse, me falaram, então, que a nossa chefe parecia a chefe daquele filme. Vi o filme somente há dois dias, e fiquei pensando acerca de como é naturalizada, em ambientes de trabalho, a questão de uma chefia tal qual a do filme “O diabo veste Prada”. Considerei isso uma gentileza de todos, inclusive do chefe, uma forma de amparar e demonstrar que aquele tipo de relação é comum naquele ambiente, e que outras pessoas constatavam a relação similar ao último filme citado.
Acredito que a forma que os demais ex-colegas lidam com a situação que segue repetindo-se naquele ambiente, é a de não levar a chefe tão a sério, e acreditar que quando ela tem tal atitude abusiva, trata-se apenas de estar mau-humorada, ou com problemas pessoais e no casamento. E ser vista desta forma, certamente, é a contrapartida daquilo que produz.
[1] http://reposcom.portcom.intercom.org.br/dspace/bitstream/1904/17130/1/R1390-1.pdf